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Carta do Presidente


O que é a EFAO? A melhor forma de entender a EFAO é através do conceito de organização. As palavras que se seguem contam um pouco da história e da génese da EFAO, e gostaria que pudessem ajudar um pouco mais ao seu conhecimento.

 

Existem várias formas de apreciar a civilização e, de um modo geral, a vida humana. Tal como a luz que ilumina o objeto muda a nossa perceção dele, assim também a nossa visão da realidade pode mudar consoante o nosso ponto de vista ou as circunstâncias em que nos encontramos.

 

Uma dessas formas é conhecer a evolução da humanidade através do seu longo percurso histórico, e pelos grandes momentos, ou acontecimentos, que induziram alterações profundas. Tal como os historiadores nos têm vindo a narrar, a história da humanidade apresenta três grandes acontecimentos que vieram a designar-se como três grandes revoluções. São elas a revolução neolítica, a revolução industrial (científico-tecnológica), e a revolução informática que se encontra, aliás, atualmente ainda em curso.

 

Cada uma dessas revoluções provocou mudanças fundamentais e irreversíveis na civilização e, consequentemente, nos padrões e paradigmas da vida material, social, política e espiritual dos povos. Ainda que essas revoluções não tenham afetado igual e simultaneamente todos os povos e culturas, espalhados mundialmente, todos nós somos atualmente, individual ou coletivamente, herdeiros das consequentes alterações e desenvolvimentos por elas induzidos.

 

A revolução atual em curso - a revolução informática - surge naturalmente como o fim de um ciclo imenso de desenvolvimento e evolução, e que poderemos, talvez, caracterizar pelo seguinte: desde as primeiras pegadas dadas pelos nossos antepassados na face deste planeta que a humanidade tem trilhado um percurso de sobrevivência que a obrigou a todo um esforço de procura, de descoberta e de desenvolvimento de novos saberes e conhecimentos, de novas ideias e pensamentos, e de novos valores e significados.

 

Todos eles conduziram à formulação de modos de viver em comunidade, uns com os outros, numa sociedade, seja ela grande ou pequena; à formulação, também, de conhecimentos - globalmente tidos como científicos -, que a foram permitindo compreender o mundo natural e descobrindo, paulatinamente, as leis e os procedimentos necessários para a resolução das necessidades da vida material; e, finalmente, na formulação dos elementos da vida espiritual que pudessem, por um lado, unir as pessoas nas várias comunidades num fundo comum de partilha de princípios, valores, e significados - estruturando e dando um sentido à vida -, e, por outro lado, dando ao homem uma certa visão extranatural, simultaneamente de salvação e de esperança, de conforto, atenta um certo sentimento de solidão, de solidão cósmica.

 

Dito desta forma, esse ciclo imenso que se fecha agora, dá origem, também, ao início de um novo. Todos nós humanos nos encontramos hoje numa situação singular e única: somos detentores dos conhecimentos e das capacidades técnicas que estabelecem, pela primeira vez na história, a possibilidade de ter uma visão holística sobre todos os povos do mundo, e sobre a gestão dos recursos e dos processos naturais pelo domínio planetário.

 

Do entendimento destas questões, resulta que o novo ciclo civilizacional que agora se inicia terá, obrigatoriamente, de passar pela revisão da forma e modo como temos vindo, coletivamente, a exercer a nossa sobrevivência neste planeta. A grande família humana terá de se organizar na grande sociedade planetária, e a gestão dos recursos e dos processos naturais terá de ser feita com um novo paradigma. Esse novo paradigma requer também um espírito novo.

 

Dito desta forma, o que surge agora como fundamentalmente novo na civilização é a ideia da ligação entre tudo e todos. As nossas atividades, as nossas ideias, e os nossos pensamentos, não mais podem continuar a ser feitos numa visão unívoca e individualista, mas numa visão de reciprocidade de ações e implicações. Dito doutra forma, a civilização deve agora assentar numa visão orgânica das coisas, pois tudo está interligado: as pessoas, as coisas, e os processos.

 

Compreender a EFAO é compreender que o processo da evolução civilizacional – que todos nós ambicionamos e desejamos ser para formas cada vez mais elevadas de realização - se deve apoiar numa ideia de desenvolvimento que, tendo por base a visão orgânica, se estabeleça por quatro grandes ideias base.

 

A primeira ideia é a de cooperação. Toda a atividade humana à face do planeta deve ter presente que só pela cooperação entre tudo e todos é que poderemos manter uma base eficiente e sem desperdícios. Por outro lado, a cooperação fomenta a aproximação das partes envolvidas, criando-se, assim, um melhor conhecimento recíproco e o estabelecimento de uma harmonia vital.

 

A segunda ideia é a de sustentabilidade. A vida no nosso planeta, ainda que de extrema resiliência e desde os tempos em que pela primeira vez surgiu, aparenta estar suspensa na fragilidade de uma pequena camada que envolve o nosso planeta: a biosfera. Tudo o que nela acontece, aparte o que nos chega ou volta ao espaço sideral, na forma de luz ou outras coisas materiais, encontra-se num domínio fechado e autossuficiente. Se imaginarmos o ciclo imenso do fenómeno da vida que acontece na face da Terra como uma roda gigante que eternamente aparenta girar (ainda que já saibamos que não é necessariamente assim!), então a sustentabilidade tem a ver precisamente com essa ideia de manter a roda a girar: tudo tem a ver com a manutenção deste movimento, que as nossas atividades não possam mais ser baseadas na ideia de que os recursos e os processos se alimentam de fontes inesgotáveis, ilimitadas; e o que é ilimitado, ou pode ser ilimitado, é, esse sim, o modo do uso das coisas, em que o fim de um uso torne a alimentar o uso da coisa seguinte, e assim por diante num eterno ciclo de regeneração.

 

A terceira ideia é a integração. Consubstancial à ideia de organismo, e de função orgânica, está a ideia de a preservação e manutenção do próprio organismo se gera pela inter-relação de todas as partes e de todas as funções constituintes. Nada está desligado de nada; e tudo depende de tudo.

 

A quarta ideia é a solidariedade. A grande família humana, constituída por todos os seres humanos vivendo nas mais variadas localidades e comunidades espalhadas pelo mundo, apresenta assimetrias importantes. Neste sentido, não estamos todos nós detentores das mesmas posições, das mesmas capacidades, e das mesmas possibilidades. Porém, todos nós nos influenciamos reciprocamente, e não podemos mais ficar indiferentes ao estado em que cada um ser humano se encontra, ou o de determinada comunidade de um determinado local.

Compreender e considerar a grande família humana é respeitar e aceitar que no rosto de cada ser humano, seja ele qual for e onde estiver, agora ou no passado, se reflete toda a humanidade (Não é isso bem visível no rosto de uma criança que ri, ou de um idoso que chora? Não nos dizem eles da alegria e do sofrimento universal? Também não é isso visível quando vemos toda uma comunidade num imenso esforço coletivo em querer salvar um único ser humano, como se nesse instante salvar esse ser humano é salvar toda a humanidade?). Ser indiferente ao próximo é sermos, em última análise, indiferente a nós próprios. Isto também se aplica a todos os seres vivos, pois todos somos partes de uma família maior ainda: a grande família da árvore da vida.

 

É do sentido destas palavras que a EFAO existe. Por isso EFAO é Earth For All Organization, ou seja, a Terra é para todos nós, e só coletivamente conseguiremos trilhar o caminho futuro da sobrevivência. E como alguém disse, a Terra é sagrada porque nela estão todos os seres humanos.

 

Das ideias assim formadas, surge a designação da EFAO como Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Sustentável Integrado. Estes termos, e seus conceitos, estão presentes para que nos ajudem a enquadrar no conhecimento da EFAO. Por outro lado, a ideia da solidariedade conduziu a que a EFAO se constituísse na forma associativa, para assim nos podermos integrar uns com os outros, na constituição de laços, na partilha de ideais e valores, no apuramento de sensibilidades, e num espírito de entreajuda e missão. Todos os membros passam a constituir, deste modo, a base social da EFAO. Os Membros são o maior capital da EFAO: é neles que se encontram os saberes, a capacidade de realizar trabalho, e as ideias criativas.

 

Para lá de tudo o que se pode vir a conhecer pelos conteúdos presentes neste sítio, e que convido a todos a procurarem conhecê-los, e a contribuírem também com mais, gostaria de deixar, talvez, uma mensagem final.

 

Nos grandes momentos de aflição, sejam eles quais forem, a vida – e o instinto de sobrevivência - parece apontar-nos sempre para aquilo que é verdadeiramente fundamental. Nesse instante de reflexão, surgem as grandes questões, a eliminação do que é secundário ou acessório, e o estabelecimento do que consideramos ser o absoluto: quem somos, o que estamos aqui a fazer, para onde vamos.

 

Em tudo subsiste uma coisa que não podemos nunca perder de vista: o sentido da própria vida. Por circunstâncias verdadeiramente mágicas, misteriosas, talvez jamais compreendidas, coube a nós seres humanos determos a condição de viver a vida com algo mais do que as exigências da sua base material, mas a vivê-la com sentimento. Neste sentido, talvez o único sentimento que nos mantém na eterna conquista da vida, no querermos manter-nos vivos, seja o sentimento da alegria. Que sentido teria a nossa vida sem ela? Como alguém disse, onde termina a alegria de viver começa a sobrevivência.

 

Não deixa de ser paradoxal que a humanidade hoje, coletivamente, detém os meios e os recursos científico-tecnológicos para poder prover as necessidades de todos, mas, simultaneamente, não consegue criar uma base de concórdia, de entendimento e de cooperação na vida social, económica e política. É nesse sentido que emerge a importância da educação no instigar e promover uma ética para o desenvolvimento. Mais do que nunca, precisamos de mais educação, de mais ciência e tecnologia, e de mais solidariedade.

 

Finalmente, e na qualidade que me cabe agora de, num certo sentido, representar a EFAO, gostaria de transmitir a todos o eterno agradecimento pela vossa contribuição: no estímulo, no trabalho, na ajuda. Só assim poderemos ambicionar que o nosso presente desague no mar futuro dos que virão - todos eles nossos filhos, de uma forma ou outra - e que encontrarão um mundo melhor do que aquele que nós encontrámos.

 

Obrigado.




Nuno Pinto Teixeira

 

Membro Fundador